"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância." (Fernando Pessoa)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Eu abismo...



Senti-me atraída pelo abismo, esqueci dos riscos, da dor causada e da morte certeira.
Esta idéia rutilando em meus olhos, grande e bizarra fez-me vertigens que simularam o desfalecimento.  Não pensei das desgraças causadas pela idéia. Apenas senti-me atraída, sem remorsos e comoção pela dor.
Não é compreensível uma idéia assim, mas imagine uma pessoa nos seus 23 ou 30 anos, com todas as expectativas de vida possíveis, que tem tudo o que os índices das pesquisas apontam como um futuro promissor. Esta mesma pessoa carrega em si a glória e o fracasso. Possui os predicados para o sucesso, mas a alma é a mesma daquele que habita em uma trincheira.
Com um aspecto macilento eu olhava firmemente o abismo achando-me, de certo modo, merecedora de toda a ruína e grandeza que ele trazia no esmo que o habitava. O abismo então me fitou muito sério, e senti no eco de meus pensamentos a repulsa que ele direcionava ao meu corpo. Eu suportei com postura inabalável aquela rejeição. Voltei um olhar com ar escarninho, com certa superioridade e depois arredei os olhos. Não convinha iniciar uma guerra com ele. À medida que ele me repelia, o meu orgulho me fazia sentir maior que aquele abismo.
Essa rejeição produziu em mim um misto de lástima e orgulho ferido. Nunca tive trejeitos com sentimentos opostos aos meus, mas duramente resisti às lágrimas.
Olhei para ele pela última vez com um leve desdém, o ruído do ar calou-se por alguns instantes, soltei um riso tímido cheio de abjeção. Quando ia me afastando, senti que ele me paralisou e com um fitar profundo me despiu das armas. Tinha nele certa cobiça um prurido de inveja e muita altivez, um contraste estarrecedor. Quando o abismo ultrapassou minhas retinas tocando minha alma, ele se encontrou dentro de mim.
O meu desfiladeirozinho, bem pequeninho que em mim existia se fez todo abismo, imponente e violador de minha conduta. Dominou-me e se jogou em meu vazio. Logo eu que queria me atirar nele, por fim, ele se atirou em mim. Tornamo-nos um só!
A princípio me entristeci, tornei-me o abismo que dantes havia cobiçado, e ele separava as esperanças de um pretérito promissor de um presente de realidades...
Adriana Garcia 
=> Eu hein!Coisa esquisita! (º_º)

2 comentários:

Dayani Guero disse...

Não conhecia seu blog. Gostei muito. Parabéns!!!!

Tenho andado afastada do meu temporariamente. rs Só mais uma das fases, sabe como é...

bjao

Adriana Garcia disse...

Oh Day, que bom que gostou.
Volte sempre!
Li seu blog esses dias. Adoro sua maneira de falar de política!

Bjão