Tenho uma mochila, dentro dela coloquei toda a certeza das tentativas.
Vai uma semente de girassol, uma garrafa de água e um diário.
Encubado têm o cheiro dos lençóis de casa e uma foto com o riso de minha irmã.
Tem um canivete sem corte e três pares de roupa.
Ah, antes que me esqueça, tem também um radinho com fones de ouvido. Quando ele funciona, a música que toca me alegra, e quando ele não funciona também...
Vai um livro de aventuras, uma lanterna e dois maços de cigarro.
Guardo nela todas as cartas de amor e um cortador de unhas.
Eu tenho uma mochila mágica, que fica pendurada atrás da porta do meu quarto. Todo dia ao sair, abro-a e retiro de lá de dentro um sonho.
Não a carrego comigo porque só tenho um dia para cada sonho. Mas eu abro a mochila todos os dias.
E ela fica lá, pendurada! Que é pra eu não esquecer que eu tenho uma mochila, caso tudo por aqui dê errado...
Todas as cores estão desaparecendo, anulando minha inspiração, tomando minha consciência.
Mas eu ainda posso me lembrar que em dias passados meus pensamentos eram sábios e claros, eu me lembro que não havia escuridão manchando minhas paredes da memória.
Eu me lembro que um dia eu me queixei pra você, eu te disse que sentia uma neblina me jogando para os lados e quando ela desaparecia, eu ficava sem nada a ganhar. Quando eu enxergava com clareza, sentia que a claridade me deixava em divergência, me puxando para trás.
Mas onde eu deveria estar? Sinto que eu estou perdida em um sonho... Vivendo num mundo paralelo. Anseio pelo dia em que possa ser eu mesma, e entrar no seu mundo. Anseio cuidar de seus quadros.
Eu percebo que para isso acontecer é preciso que você se sinta livre. Vai ser preciso o sol se pôr e juntos libertarmos os desejos para sempre. É preciso a certeza de que não haverá arrependimentos de ser livre.
No momento que isso acontecer, existiremos novamente um para o outro, sem esforços perdidos, sem nada pra ser preocupar... Não precisaremos agradar. Seremos livres!
As psicodélicas cores que me atordoam e me diminuem, vão se definir. Elas vão dar espaço para as certezas. Os holofotes vão diminuir o foco em meus olhos e eu poderei vê-lo como é realmente, sem nenhum brilho exagerado.
No entanto, não descuidaremos da distância, para que nada se perca. Vamos nos desapegar do tempo, no aqui e agora! É necessário sair dessa de dosar sentimentos. Nessa de que o tempo é mais sábio que o coração. O tempo é só um conceito e é sempre a primeira coisa a sumir. Somos nós que definimos o merecimento, somos nós que escolhemos entre a mágoa e o perdão. A agonia sempre acompanhou a fraqueza e isso eu sei que posso evitar, mas esse tempo imposto é cruel, ele me quebra! Existem coisas que por mais que tentamos consertar, não há conserto. O passado é estático e as pessoas não são iguais. Na nossa ciência comum, na nossa percepção dos acontecimentos e na relatividade de uma possível repetição dos fatos, nós acabamos generalizando as personalidades e as histórias de amor. Eu entendo, também agi assim, e hoje eu tento caminhar por caminhos diferentes pra chegar num outro destino. Mas e se o destino é que muda e não o caminho? É o risco!
Tudo bem se tem que ser assim. Eu só quero a minha liberdade de sentir, de sonhar, de amar. Eu não quero ter que cuidar as palavras, pra não escapar um “eu te amo” no tempo errado. Eu não quero ter que dosar sentimentos porque ainda não completou 6 meses. Eu quero escapar dessas armadilhas. Eu sei que eu não posso agüentar, mas vou esperar a sua hora de acabar com tudo isso. Sentimentos são livres. É tudo o que eu realmente quero e preciso.
Não há quem culpar, porque o destino é aleatório. É algo que não vou conseguir explicar, mas eu entendo, e assim permanece. Quando eu vou poder agir sem cuidar o tempo? Não era pra ser assim. Desando desesperadamente para mudar e ainda assim ser eu mesma.
Abro mão de minhas crenças nas pessoas, não porque desacreditei, mas porque vou enxergá-las com o mesmo propósito só que com um olhar terno, como eu ainda não tinha olhado. Não vou recomeçar. Ao contrário, vou começar uma nova etapa. Recomeçar é fazer novamente as mesmas coisas de um jeito diferente e eu estou me propondo viver o que eu ainda não vivi.
Eu vou apostar no tempo. Vou depositar minhas fichas nesta teoria que me parece tão bela. Estou certa que não haverá arrependimentos. Faz parte da condição de ser livre ter desprendimento com as preocupações.
Quando eu for livre, não vou ligar pro tempo. Doravante ele será a nossa história.
Sabe aquela vontade de cantar no chuveiro? De beijar todo mundo no rosto?
De conversar com aquela senhora da rua como se fossem íntimas.
Uma vontade de falar para aquele moço triste que não compensa chorar, e que ela irá voltar.
Vontade de rodopiar uma criança, de abraçar o chefe!
Vontade de ligar pra aquela amiga do ginásio escolar e dizer que a distância em nada afetou o carinho dantes compartilhado.
Vontade de chorar ao ver um comercial de margarina na TV.
Vontade de ficar mais bonita, colocar aquele vestido guardado, usar aquele perfume que só se usa com ele... Colocar uma flor no cabelo. Dançar no meio da sala, um baile mudo, sem nenhum som ligado, com a música na minha cabeça.
Vontade de bronzear a pele, de pintar o rosto, desenhar um coração numa árvore com as iniciais A & E...
Uma vontade doida de salvar o mundo. De levar a música em todos os becos da cidade. Plantar flores em cada esquina do bairro.
Vontade de reciclar, de colorir, de perfumar tudo ao redor.
Vontade doida de deitar na terra debaixo de uma mangueira e ouvir o vento balançar as folhas. Andar com os pés descalços, sentir as pedrinhas na sola dos pés.
Vontade de tomar aquele banho de cachoeira com água gelada que arrepia a pele e lava os sentimentos contraditórios a esta paz que eu sinto.
Vontade de correr desesperadamente pela estrada que me leva até ele. Correr de braços abertos, sorriso no rosto e todo o amor do mundo na bagagem.
Quando se gosta puramente e se é correspondido tudo fica mais bonito. Tudo ganha mais cor, mais cheiro, mais sentido. Os sentidos despertam, o simples é que é belo!
E ele é bonito pra caramba! Meu lindo...
Adriana Garcia
=> Depois de um fim de semana com ele. Muito bom, bom deveras!!!
Eu deitava na praia, a cabeça na areia
Abria as pernas aos alísios e ao luar
Tonto de maresia; e a mão da maré cheia
Vinha coçar meus pés com seus dedos de mar.
Longos êxtases tinha; amava a Deus em ânsia
E a uma nudez qualquer ávida de abandono
Enquanto ao longe a clarineta da distância
Era também um mar que me molhava o sono.
E adormecia assim, sonhando, vendo e ouvindo
Pulos de peixes, gritos frouxos, vozes rindo
E a lua virginal arder no plexo
Estelar, e o marulho das ondas sucessivas
Da monção, até que alguma entre as mais vivas
Mansa, viesse desaguar pelo meu sexo.
Ele retornou! Retornou pra nossa vidinha simples e singular. Os telefonemas noturnos. As conversas infindáveis. As risadas sinceras. As poucas queixas. Os pequenos segredos. Os desabafos que aliviam. A cumplicidade. O carinho dividido que se multiplica. O respeito inabalável. A confiança inquebrável. O gostar inquestionável. Ele retornou pros dias corridos. Pros pequenos momentos recompensadores. Ele retornou enfim... O que sem ele era poesia hoje se fez prosa!
Ele retornou pra mim!
Adriana Garcia
=> Os dias melancólicos longe de ti, hoje serviram de impulso que me jogou em teus braços...
Ouvindo este trecho da música Metade de Adriana Calcanhoto sutilmente me dei conta que eu não moro mais em mim... Eu moro nas outras pessoas, eu moro nos lugares, eu moro no vento, no tempo, nos momentos... Eu moro aonde a minha alma vai toda vez que eu sonho. Nos lugares que meus pensamentos me levam, eu moro nas fantasias. Eu moro dentro de cada pessoa que eu amo, e elas moram em mim...
Minha morada é na lua, no sol, na cachoeira, no perfume dos lírios... Minha morada é no gosto do vinho, no trago do cigarro, na essência do incenso. Minha morada é na cor púrpura das gérberas, na tontura de uma roda gigante ou no perigo de uma roleta russa.
Moro nas sensações, nos delírios, nas palpitações, no arrepio da pele... Moro no excesso de tudo o que me comove e que desperta os meus sentidos.
Moro nas coisas simples, moro nos lugares em que nada se paga por morar. Na minha morada sou apenas hóspede, lá eu moro com todo mundo e não moro com ninguém...
Antes me sentia refém do tempo, aprisionada no cárcere das horas. Agora não tenho mais preocupações com o relógio. Não conto meus passos a cada movimento do ponteiro. Quando se tem a quem abandonar, os dias subseqüentes a partida tornam-se vazios e longos. Não há afazeres ou qualquer outra atividade que consiga preencher estas lacunas abertas pela ausência.
Agora eu não caminho pelas calçadas tentando me manter a salvo, exalando o cheiro do medo no vento que sopra contra mim. Agora eu atravesso a rua, corto a preferência dos carros, insinuo segurança nos olhares que lanço nas pessoas inalcançáveis que se disfarçam de objetos para fugir dos sentimentos. Agora eu corro nos trilhos me equilibrando para manter o foco no trajeto, sem dispersar minha atenção pros supérfluos que estão fora de qualquer convenção.
Agora eu tirei as máscaras para sentir a brisa tocar minha face, despi-me das roupas para que o sol queime minha pele, quero sentir o frio arder nas noites sem lua. O fogo deixa de queimar, o rubor perde a cor, mas eu continuo a mesma. Mudei apenas o modo que trato os meus sentimentos. Às vezes sinto resistência as mudanças, mas um dia temos que começar as mutações. Dentro de nós há muito mais do que possamos ver e sentir, e a descoberta torna-se possível quando se transforma sombras em verdades.
Estou saindo da juventude moribunda, não sou uma fachada, e minhas mudanças não são superficiais. Minhas recordações desapareceram nesses últimos dias, isto me faz pensar que preciso mudar os meus caminhos. Meus sentimentos são consumidos por dentro e a casca que os envolve é de mármore.
Agora que abandonei meus medos, fiquei espantada, com as capturas que fiz dentro de meu severo mundo utópico. Capturei carinhos doces que não iam continuar por muito tempo, sentimentos imperfeitos e aflições inúteis. Sempre usei o amor como um dispositivo contra a solidão e como tudo o que vejo o amor se tornou um sonho que um dia foi real. Eu secretamente almejei algo que nunca havia existido e meus sonhos se precipitaram em realidade. Fui graciosa do lado de fora e em profunda decadência por dentro. Devotada a um corpo sem alma fiz minhas investidas no que eu acreditava ser real.
Agora, neste exato minuto estou nua por dentro, procurando pistas do que eu sou e recusando os fatos do profundo interior que me encaminham para o deserto árido que é a esperança.
Estou à espera pelo dia em que eu me darei conta de que não existe caminho, e que eu já não tenho tempo para viver nesta condição.
Por hoje me basta apenas não viver mais em uma mentira!
Só escrevo quando tenho conflitos e hoje acordei em paz...
Talvez seja o espírito pascoal que se aproxima que faz eu me sentir assim. A páscoa sempre me deixa apreensiva, para mim é uma data importante, não só pela simbologia religiosa (até porque não sou muito ligada à religião, tenho minhas crenças, tudo ao meu modo íntimo), mas também porque me lembra muito os meus pais, ou melhor, os meus três pais. É isso mesmo! Sou uma criatura que teve três pais e não teve nenhum... Mas bem, isso é assunto pra outra hora!
Agora só quero ficar curtindo minha deliciosa paz...