"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância." (Fernando Pessoa)

sexta-feira, 26 de março de 2010

Desejos


 A noite estava negra, o céu sem sinal de vida. Um breu que extinguia as expectativas de um amanhecer. Ela estava de cabelos úmidos do banho, um leve frescor exalava de seu corpo coberto apenas por um tecido leve. Sentada no limiar da porta observava atentamente o campo de relva a sua frente. Pensara nos dias que ali estivera com ele... Tardes inteiras dedicadas a poesias e guloseimas.


Ele era um homem feito, não pela idade, mas pelas experiências adquiridas em suas históricas viagens, tinha um corpo impositivo, um olhar austero e um tom de voz que ameaçava a inocência de qualquer moça.
Ela opoente a ele, era inexperiente, o corpo esguio um olhar lânguido, uma voz doce e ingênua. Era frágil, tinha no modo de andar uma malícia que ela mesma desconhecia.
O único momento que as adversidades dos dois se assemelhavam era naquelas tardes... Poemas, alguns toques de mão e um único beijo trocado. O fim das tardes se deu naquele beijo. Ele havia desaparecido depois daquela entrega, ela por sua vez, sentia-se abandonada, havia sido sincera em suas palavras e aquele beijo era a sua maior prova de devoção.
Sentada com as pernas esticadas e os braços cruzados num gesto de abraço a si mesma, ela revivia todos os momentos que haviam se passado. Com olhos cerrados como que em busca de memórias palpáveis, suspirava profundamente enaltecendo sua saudade.
Lembrou da última conversa que tiveram:
Nuno:
- O que sentes por mim? Por que dedica suas tardes de estudo e poesia a este ser que não merece os teus olhares?
Virgínia:
- Sinto uma grande admiração por suas experiências de longas jornadas, o modo como fala me encanta, viajo pra longe desse meu mundinho limitado quando ouço tuas histórias. Soa-me como poesia.
Nuno:
- Poesia? Não uso de palavras bonitas para lhe falar de minhas façanhas. Uso a poesia apenas no momento em que te chamo pelo nome.
Aquele comentário chegou-lhe aos ouvidos repleto de estima e timidez. Sentiu enrubescer todo o corpo. Por mais pobre de lirismo que fosse aquelas palavras, ele conseguiu o efeito que desejava.
Ele tinha um romantismo buscado em livretos baratos, para ele até então havia sido suficiente para arranjar-se nas viagens... Uma namorada aqui, outro affair ali, e assim seguia sem nenhum laço afetivo, sem cobranças ou compromissos.
Nuno:
- Fala-me de amor meu anjo.
Virgínia:
- Nada sei sobre o amor. Apenas ouço sussurros sobre ele.
Nuno:
- Não é capaz de definir tal sentimento?
Virgínia:
- Não. Ainda não sou capaz.
Disse isso com um tom de derrota na voz, baixou o olhar e chorou. Chorou dentro de si, estava se sentindo tão diminuída pela sua inexperiência. Tinha dentro dela todos os desejos do mundo e nenhuma consumação.
Ele pegou carinhosamente a mão dela, como que num ato de renúncia de todos os seus amores passados e respeitosamente beijou-lhe os lábios.
Um beijo tão puro, um instante mágico aonde suas vidas se uniram naquele ato impensado e envolvente. As fantasias dela com aquele momento agora eram passado. Aquela magia estava guardada em suas memórias. Um passado não tão longe que preenche saudosamente os seus pensamentos. Ele partiu assim que a beijou. Logo naquele momento onde era capaz de falar sobre o amor. Sim, sentia-se capaz de falar sobre o amor.
Ele partiu, e assim como nos livretos que ele lia, ela presumiu que a história dos dois findou ali.
Assim como nos sussurros sobre o amor que ouvia aleatoriamente nas reuniões e salões de festas, ela sabia que o amor guiava para a perda, ele era o caminho para os finais tristes.
Ela parou de reviver aquela conversa, recolheu-se no seu quarto e pôs-se a escrever sobre o amor e sobre aquelas tardes ao lado dele.

“Amor não é forte. Você se foi.
Amor não é estável. Eu tentei segurar nossa história, mas eu não fui capaz.
O amor me limitou. Eu nunca pensei que estaria escrevendo isso, mas o que eu posso fazer?
Você se foi e deixou palavras intransigentes nos meus lábios.
Quando elevo o meu olhar eu ainda vejo nuvens que se parecem com você, então olhar para baixo é o que vou fazer.
Vou ficar bem, vou chorar um tempo porque algo dentro de mim morreu um pouco. Eu não tenho que esconder, você foi embora.
O amor guia para lágrimas, estou triste e eu nunca pensei nisso tudo, nessas coisas que o amor pode despertar. Olha o que ele fez comigo!
Com todos os pesares e com a dúvida intrínseca em meus dias, eu sigo enterrando aquelas tardes doces nas minhas noites amargas.”

Ouviu a campainha soar e correu para a porta. A esperança renasceu em seus passos rápidos. Seria ele? Ele teria voltado para terminar aquela conversa e selar com um terno beijo?
Ao abrir a porta acordou dos delírios do passado. Era Felipe, o homem com quem casara. Sim, a vida continuou depois da partida de Nuno. Casou-se e consolidou o seu lar com filhos e dias a fio dedicados a vida doméstica. Nunca mais Virgínia escreveu sobre o amor.
Aquelas tardes foram guardadas no seu passado não tão distante. O passado só morre quando os sentimentos não existem mais.

Adriana Garcia 



"Me deixe sim
Mas só se for
Pra ir ali
E pra voltar

Me deixe sim
Meu grão de amor
Mas nunca deixe
De me amar..."





 


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