Um dia recolho os cacos que sobraram de mim, por ora a comodidade me impede.
Espatifada com verdades reveladoras, cheia de estranheza por minhas mudanças íntimas, um dia eu recolho meus cacos e faço deles um vitral.
Não pretendo ser um vitral imaculado, desses que colocam nas janelas das igrejas e capelas, lá no alto onde ninguém alcança...
Basta-me unir os cacos, não precisa ter simetria, ou formar figuras que lembram a redenção. Pode ser abstrato. Sem formas, incoerente ou impreciso.
Só preciso que os cacos se unam, melhor se eles se fundissem e que sejam multicoloridos, mas que não deixem de ser harmônicos. Melhor seria furta-cor.
O que eu quero mesmo é cair e me despedaçar incontáveis vezes... Até que o vitral se torne pó. Minúsculas partículas homogêneas.
Pretendo ser uma obra incompleta repleta de microscópicos grãos e pequenas particularidades. Posso continuar pó, não seria nada mal. Desde que o vento o espalhe pelo ar... Assim, estando em todo canto, perdida na casualidade da imperfeição posso dizer que sou mais inteira na minha plenitude felizmente despedaçada.
Adriana Garcia
=> Ando numa estranheza que só...

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