"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância." (Fernando Pessoa)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Como eu sofro!!


De manhã acordou irritadíssima com o grito do celular a despertar. Como odiava aquele toque frenético. A vontade era de ficar na cama, não levantar naquele dia, afinal que graça tem lá fora? Aquele toque persistindo de 8 em 8 minutos era a consolidação de sua escravidão branca.

Ao sair da cama não achou suas chinelas, pisar no chão frio era decretar sua morte. Foi ao banheiro tomar banho, o chuveiro não aquecia, higienizou-se e vestiu-se. Camisa amassada, mas nem ligou, era uma gorda mesmo, a camisa se ajustava em seu corpo e tudo ficava bem...

Não tomou seu café da manhã, o motivo era o mesmo de não passar a camisa. No caminho do trabalho foi blasfemando contra todos que cruzavam sua frente. É tão difícil assim as pessoas respeitarem o transito? Não percebiam que ela estava atrasada? Não era mesmo o seu dia.

Ao chegar à empresa tentou ser simpática. Bom dia! Bom dia! E aí menina como foi o fim de semana? Bom dia!

[...]

“Que droga! Quem mexeu em minha mesa? É tão difícil assim respeitar o espaço dos outros? Ninguém respeita ninguém... Fazem isso porque eu sou mulher! Ninguém me acha competente. Isso está acabando comigo, estou gorda por causa desse trabalho, não durmo porque os problemas do mundo estão em minhas costas! Será que isso só acontece comigo?”


Minutos depois de falar mal do mundo sem dizer uma só palavra, resolveu se ocupar logo do trabalho. Já havia alimentado dentro de si com ira a sua revolta.

“Mas é um inferno mesmo! Essa droga de notebook não liga! Dá erro! Infernos!”

A vontade era matar Bill Gates ou quem quer que fosse o responsável por aquela engenhoca que não funciona quando mais se precisa!

Na hora de ir almoçar já não tinha mais fome, a úlcera colérica de raiva já tinha comido o seu estomago. Pra variar sua carona pro almoço atrasou. “De certo essa pessoa pensa que tenho todo tempo do mundo.”

A tarde ninguém mais se aproximava dela, mal a olhava pelos vidros da divisória. “Esse pessoal tá escondendo alguma coisa de mim... Ninguém falou comigo hoje, estão me evitando. Será que sabem de alguma coisa que eu não sei? Ai meu Deus! Vou ser mandada embora!”

E agora, o que ela ia fazer sem emprego? Suas dívidas? Sua casa? Por que acontece tanta tragédia em sua vida? O que ela havia feito ao mundo, as pessoas?

Ao fim do dia estava destruída, com vontade de morrer e matar, uma dessas alternativas iria acontecer dentro das próximas 24 horas! No caminho de casa pensava em tudo, como fora sua vida até ali, ninguém nunca a amou de verdade, estava prestes a ser mandada embora, não tinha amigos, animais de estimação, era feia, burra, infantil... Uma inútil!

Trancou-se no quarto e chorou. Sentiu uma leve dor no abdômen. Seria fome por não ter almoçado?

Resolveu se lavar para preparar o que comer. No banho sentiu contrações no abdômen, uma leve cólica...

Indignada com sua condição descobriu que toda sua crise de nervos, crise existencial, crise emocional, crise conjugal, crise familiar, financeira... Crise Mundial... Por que não???

Todas as suas crises resumia-se a apenas uma crise de TPM!


Adriana Garcia

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

ÓPIO



Naquela tarde não caberia canções, nem sons, nem coisa alguma. Tudo estático, sem vorazes ressentimentos de palavras proferidas, nada de se perder nas ásperas paredes de um labirinto. Os instintos alertam pra imperceptível chegada da dor, o fel que escorre dos corações abandonados. O corpo dilui em feitiços rogados pela boca que jaz o beijo.
Morta de esperanças sem lume, sem viço. Cálido desejo que atordoa por querer se fazer ouvir. O ímã fatal que a carne contrai, sem saber da alma que já não carrega – perdeu-se no vão.
Requintes de malícia absorvem a gota que da face escorre, saciando o desejo da pele por calor.
Num suspiro acorda sob efeito dos analgésicos. Já não é preciso ir a farmácias, no seu jardim cultiva seu remédio. É isso! Falta-lhe cuidar de algumas plantas. Cuidar da floração, extrair o fel castanho. Sentir o sabor amargo acre do fruto. Só seus frutos entendem sua dor... O látex leitoso da papoula... Suas belas papoulas.

Adriana Garcia

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Infância



Noite passada antes de dormir vasculhei o baú da minha memória, encontrei vozes, gostos, cheiros, texturas que se diluíram em lágrimas, as mais saudosas que já verti. Então me deixei levar pelas lembranças que preencheram o vazio dentro de mim, vazio de sonhos, palavras de aconchego, de versinhos para brincadeiras de roda, da inocência do riso, a força do braço que provocava o grito, da fé inabalável das orações que precediam as refeições. Por instantes o passado se fez presente.


Foi possível sentir o cheiro... A terra molhada depois de um chuvisco, e a esperança que chegava com o arco-íris, eu era capaz de andar léguas atrás do pote de ouro que se escondia ao final dele, mas era detida pelo medo, pois diziam que quando a menina passava debaixo de um arco-íris logo virava menino. Fim de tarde tinha cheiro de bolo. Sentada na beira da rua o comia com voracidade a ponto de ganhar advertências sobre bons modos.




Fim de tarde tinha cheiro de bolo e suor. Suor de minha pele, da pele de vovô, que chegava exausto da lida, mas não menos animado pra brincar com a gente (eu e meu primo Caio). Eu ganhava um abraço apertado e suado, era o meu prêmio por ter sido uma menina “comportada” o dia todo. Aquele abraço terno virava um turbilhão de gargalhadas – talvez as mais sinceras até agora. Os dedos de meu avô faziam grosseiramente cócegas que doíam de prazer, eram tantos risos, tantos gritos de socorro, um escândalo de alegria.
Tentávamos mantê-lo fora de casa, mas sem sucesso. Era coisa séria se ele entrasse em casa, vovó vinha com as queixas recebê-lo, eles conversavam num português mais agradável que já ouviu os meus ouvidos:



“– Num guento mais esses minino, ralho com eles, mas num tem jeito, são custoso demais, é muita danura pra duas criança. Ênio acredita que hoje eles soltaro tudo minhas galinha e depois cortaram tudo os meus pé de planta? Ênio para de rir!”.



Vovô apoiava todas as “danuras”, nem que fosse preciso brigar com a vovó:



“ – Deixa Maria, minino é assim memo, tem que corrê, tem que brincá, mexê com água, tê contato com a terra, fazê estripulia, senão cresce uns minino cheio de doença.”



Era o melhor advogado que existia! Sabíamos de seu fiel apoio e isso nos encorajava para realizarmos nossas peripécias. Eu era tão rica, tinha tudo o que precisava pra ser feliz e me tornar hoje quem eu sou. Tinha o lugar, as pessoas e as palavras necessárias.


Tentei eternizar minha infância, mas sempre ouvia minha mãe dizer que eu já estava grandinha demais pra fazer aquilo, que tinha passado da idade e não tinha mais graça.



Os anos passaram e fui levada pra uma cidade de gente estranha, de gente que não ria, as crianças eram iguais aos adultos. Não havia escolha. Tive que permanecer ali, e permaneço até hoje, me tornei mais uma daquelas crianças, matei alguém dentro de mim, me afundei em livros e nas intermináveis manhãs de sono, já não tinha com quem brincar, ali não tinha pé de árvore, nem animais, nem banho de chuva. Aquela massa cinza cobrindo o solo, não permitia que eu corresse pelas ruas, doía-me os pés, mais que as pedras daquela ladeira de chão.



Cada amanhecer trazia consigo um pedaço de dor. Aquele lugar, aquelas paredes me detendo, aquela caixa de imagem se tornando minha melhor amiga. E meu primo? Cadê o Caio?



Meu coração foi endurecendo, sofria pela saudade e pela solidão. Sofria preconceitos daquela gente fria, eu havia me tornado motivo de chacotas na escola porque não falava com aquele sotaque bizarro, deve ser por isso que não me deixei contaminar nesses 18 anos que vivo aqui. Eles não entendiam de crianças, na classe não rezavam, não cantavam aquela canção que soa vibrante em minha memória... “Bom dia coleguinha como vai? Da nossa amizade nunca sai, faremos o possível para sermos bons amigos. Bom dia coleguinha como vai?” Dias difíceis!



Mas nunca me deixei amargurar por conta desses acontecimentos. Não culpo essa cidade nem aquelas pessoas, elas eram mais tristes do que eu. Elas, coitadas, pouco sabiam de humildade, gratidão, compaixão com o próximo. Pouco sabiam de amor.


Guardo em mim uma tristeza saudosa. Levo na bagagem todas essas lembranças com o propósito de me servirem de fuga da realidade. Reviver as coisas boas é acalanto, me faz crer que o amor é possível.



Hoje as coisas vão bem, a muito custo vão bem. Engolindo as palavras, excluindo as ofensas – não as tornando menos dolorosas. Crio o meu mundo. E ele cabe dentro de mim, tão pequeno, tão simples, aconchegante, tão oprimido por não se fazer real.


Súbita viagem. Da menina feliz a adulta frustrada.



Lembranças que embalaram meu sono...




Adriana Garcia

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

"Preciso de música

Música que identifique a dor em mim

Música pra curar a alma, pra fazer sonhar

Esquecer as feridas de outrora."


Adriana Garcia


http://www.youtube.com/watch?v=MQyEyxBut4w

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

“Não pretendo mudar, não minha essência, pois não teria tempo
Adaptações sempre soaram desafiadoras para mim, embora venha tentando
Sempre me serviu ser assim,
Lirismo e surrealismo compondo os dias meus
Se te supro deste modo, se compreendes meus anseios
Já nos serve de alento.”


Adriana Garcia