"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância." (Fernando Pessoa)

terça-feira, 2 de março de 2010

Novo tempo





 Um dia que ela não sabia ao certo se era dia ou se era noite.

Os olhos traziam as pupilas negras, não de cor, mas de promessas desfeitas. Olhar negro e profundo. Os dias tornaram-na muda e as noites a fez loquaz. Sempre fora coerente, metricamente calculada e prevenida, mas por motivos desconhecidos tais características haviam evaporado. De tão sensível, jura ter sentido o arrepio no momento em que se deu tal perda. Deitou-se e começou a cantar aleatoriamente algumas letras mal decoradas, pairava no ar a fumaça do incenso de mirra, aquela fumaça era a lembrança mais próxima que tinha do calor. A noite estava fria e o silêncio aumentava proporcionalmente à medida que cantarolava. Os cantos são geralmente alegres – afirmou para si mesma. Examinava sua mente com perícia e sutileza, calcando as más lembranças. Tentava nutrir apenas o desejo de ficar bem, era inadiável, quase uma aspiração natural aquele desejo – urgente!

Pôs de lado as canções, se agarrara ao diário, era de longe, o seu melhor confidente, como se escrever expirasse sua amargura, e de fato expirava. Duas linhas ou mais e logo levantou-se, estava difícil conter a ansiedade. Fitou-se no espelho, embora bonita e com ar domingueiro sentiu-se com aspecto facínora. A vida fez dela uma jovem seca, e a falta de perspectiva agravava aquela miséria. Os olhos estavam dilatados e fixos, mas distraiu-se com as marcas de expressão em seu rosto. Analisou-as por longo tempo, sorriu, franziu os olhos e brincou com as expressões. Suas marcas eram de seriedade e preocupação, poucas eram as marcas de risos. Como que num grito de libertação, com a voz gutural fez a jura: “Daqui em diante, apenas marcas de risos.”

Sentiu que ela havia roubado de si dias felizes, roubado para entregar as lamúrias. Criatura besta! Mas há tempo – pensou a criatura. Ligou o som baixinho, quase não ouvia, queria aguçar sua audição. Ensaiou alguns movimentos leves, dançava com a alma. A libertação causara-lhe euforia interna, não precisava gritar a paz que sentia, estava na medida certa, na proporção e intensidade harmônicas com sua anatomia. Experimentou sensações novas, descobriu nuances de cor no ar. Ficara assim por minutos, horas talvez.

Retomou o raciocínio ainda elevada. Teria encontrado o caminho?
Corrigiu-se rapidamente. Nada de perguntas! Apenas sentir cada segundo de vida. Teria se tornado uma avantesma de si mesma. Cabia-lhe agora, a incessante tarefa de mudar, remodelar e esculpir suas caricaturas.

Viver certamente exigiria mais. Muito mais do que estava habituada!

 Adriana Garcia



*Sou sempre surpreendida com a maneira que os sentimentos me possuem e me tomam a sobriedade...

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