Um dia que ela não sabia ao certo se era dia ou se era noite.
Os olhos traziam as pupilas negras, não de cor, mas de promessas desfeitas. Olhar negro e profundo. Os dias tornaram-na muda e as noites a fez loquaz. Sempre fora coerente, metricamente calculada e prevenida, mas por motivos desconhecidos tais características haviam evaporado. De tão sensível, jura ter sentido o arrepio no momento em que se deu tal perda. Deitou-se e começou a cantar aleatoriamente algumas letras mal decoradas, pairava no ar a fumaça do incenso de mirra, aquela fumaça era a lembrança mais próxima que tinha do calor. A noite estava fria e o silêncio aumentava proporcionalmente à medida que cantarolava. Os cantos são geralmente alegres – afirmou para si mesma. Examinava sua mente com perícia e sutileza, calcando as más lembranças. Tentava nutrir apenas o desejo de ficar bem, era inadiável, quase uma aspiração natural aquele desejo – urgente!
Pôs de lado as canções, se agarrara ao diário, era de longe, o seu melhor confidente, como se escrever expirasse sua amargura, e de fato expirava. Duas linhas ou mais e logo levantou-se, estava difícil conter a ansiedade. Fitou-se no espelho, embora bonita e com ar domingueiro sentiu-se com aspecto facínora. A vida fez dela uma jovem seca, e a falta de perspectiva agravava aquela miséria. Os olhos estavam dilatados e fixos, mas distraiu-se com as marcas de expressão em seu rosto. Analisou-as por longo tempo, sorriu, franziu os olhos e brincou com as expressões. Suas marcas eram de seriedade e preocupação, poucas eram as marcas de risos. Como que num grito de libertação, com a voz gutural fez a jura: “Daqui em diante, apenas marcas de risos.”
Sentiu que ela havia roubado de si dias felizes, roubado para entregar as lamúrias. Criatura besta! Mas há tempo – pensou a criatura. Ligou o som baixinho, quase não ouvia, queria aguçar sua audição. Ensaiou alguns movimentos leves, dançava com a alma. A libertação causara-lhe euforia interna, não precisava gritar a paz que sentia, estava na medida certa, na proporção e intensidade harmônicas com sua anatomia. Experimentou sensações novas, descobriu nuances de cor no ar. Ficara assim por minutos, horas talvez.
Retomou o raciocínio ainda elevada. Teria encontrado o caminho?
Corrigiu-se rapidamente. Nada de perguntas! Apenas sentir cada segundo de vida. Teria se tornado uma avantesma de si mesma. Cabia-lhe agora, a incessante tarefa de mudar, remodelar e esculpir suas caricaturas.
Viver certamente exigiria mais. Muito mais do que estava habituada!
Adriana Garcia
*Sou sempre surpreendida com a maneira que os sentimentos me possuem e me tomam a sobriedade...

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