"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância." (Fernando Pessoa)
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Seja Por Esta Hora - Fernando Pessoa
...
Seja por esta hora que me leveis a enterrar,
Por esta hora que eu não sei como viver,
Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,
Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,
Cujas sombras vêm de qualquer cousa que não as cousas,
Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível
Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.
Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que não tenho nem quero ter,
Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio,
A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria
- Tu que me conheces - quem eu sou...
Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa - trecho)
**(Por não saber o que fazer, estou na espera que me digas!)
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Amar - Carlos Drummond de Andrade
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
*Superando os medos que me travam, impedindo que eu possua a nobreza de amar...
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
*Superando os medos que me travam, impedindo que eu possua a nobreza de amar...
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
É o que me interessa
Vídeo da Música: Lenine - É o que me interessa
Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem.
Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.
Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa.
A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
[des]gosto
É a falta de gosto. Não pelo ser amado. É a falta de gosto por mim mesma. É o desgosto!
É o cansaço, é uma falta de vontade de tentar entender, de compreender, é a vontade de mandar tudo pelos ares. É vontade de virar as costas e sair rindo, como se nada tivesse acontecido. Indiferença.
Mas não tem como, porque eu estou começando a achar, às vezes quase tenho certeza, que eu o amo.
É quase absoluto, e como tudo o que é absoluto me causa a dúvida. Mas eu tenho certeza que o amo.
Mas isso não sai de dentro de mim. Eu amordaço estas três palavras [eu te amo], porque eu não ouso soltá-las. Não mesmo. Pra mim é coisa séria. É imortal...
E não quero ninguém rindo do meu jeito de amar. Não quero julgamentos, porque eu amo do meu jeito. Do jeito que aprendi e do que jeito que fui amada. Se é que eu fui amada!
Amada ou não, eu amo e esta afirmação me apavora.
Amar é viver a beira do abismo, e admitir o amor que sinto é me jogar de olhos fechados no abismo.
Estou completa de amor, de desgosto, de cansaço e de uma certeza de que vai dar tudo certo.
Eu não sei como eu posso, apesar de todo o desgosto, ainda ter certeza de que vai dar certo.
Talvez seja a certeza de amar, que me faz ter a certeza de que vai dar certo.
Desgosto, cansaço, medo, tudo isso passa... Amor não!
Adriana Garcia
:(
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Em busca da serenidade.
Já não importa a presença ou a ausência.
Não faz diferença, é tudo a mesma coisa.
Afinal, é só um corpo, ou um corpo a sós...
Já não me importa atenção ou rejeição.
Meu bem estar não depende de atitudes alheias.
Nem tudo são gestos...
Já não tem sentido buscar explicação.
Se fez ou não fez, se ligou ou não ligou, se há preocupação ou não.
No fim, tudo evapora com o tempo e o que se dizia presente fica no passado...
Já não pertence a mim o direito de comparações afetivas.
Medir palavras, carinhos, gestos e reciprocidade.
Afinal, sempre tem aquele que ama mais e aquele que se deixa ser amado...
Já não busco salvar minha vida. Basta-me preservar o dia de hoje.
Planos exagerados, sonhos voluptuosos só me causam frustração.
A realidade é dura, porém benéfica. E o dia de hoje é o meu futuro.
Já não perco o equilíbrio com julgamentos inúteis.
Cada um sabe o que faz e espera as consequências, consciente ou não desta espera.
É tudo ação e reação, reação e consequência.
Não busco a santificação, mas aceito viver no purgatório o tempo que me for necessário.
É preciso encarar dias ruins como uma alavanca pra melhorias internas.
Eu não fazia permutas com qualquer divindade que seja. E não vai ser agora!
Desejo o bem-estar de meu próximo, e neste caso a pessoa mais próxima de mim sou eu mesma.
Cuidadosamente, pois a linha que separa amor-próprio de egoísmo é demasiada tênue.
É perigoso cortar defeitos e acentuar qualidades, pois há o risco de desequilibrar o conjunto.
Entrego nas mãos Dele.
Dia após dia aprendendo. Estou me amando mais... Deste modo eu me preservo.
Estar sozinha não é tão negativo. Sou uma boa companhia e gosto das descobertas que estou fazendo.
Obstáculos sempre existiram em meu caminho. Mas agora há uma diferença:
Ao invés de contorná-los eu os encaro e supero.
Posso estar errada sobre tudo o que escrevi, e se assim for admitirei.
Não tenho tempo para covardia e autoengano.
São falhas primitivas e destruidoras.
Sem esperar algo dos outros, sem cobranças de qualquer gênero.
Sem me levar tão a sério...
Em busca da Serenidade!
Adriana Garcia
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
QUERO
Quero que todos os dias do ano
Todos os dias da vida
De meia em meia hora
De 5 em 5 minutos
Me digas: Eu te amo.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
Creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
E no seguinte,
Como sabê-lo?
Quero que me repitas até a exaustão
Que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
Pois ao não dizer: Eu te amo,
Desmentes
Apagas
Teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
Isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
Nem sei de outra maneira a não ser esta
De reconhecer o dom amoroso,
A perfeita maneira de saber-se amado:
Amor na raiz da palavra
E na emissão,
Amor
Saltando da língua nacional,
Amor
Feito som
Vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
Inexoravelmente sei
Que deixaste de amar-me,
Que nunca me amaste antes.
Se não disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamoamo,
Verdade fulminante que acabas de desentranhar,
Eu me precipito no caos,
Essa coleção de objetos de não-amor.
Carlos Drummond de Andrade
É pedir muito pra quem não pode fazer nada...
Evaporar
É num dia como este que eu sinto uma predisposição pra mandar tudo pelos ares. Jogar tudo na lixeira e começar do zero. Mas de verdade, sem nada, nem mesmo a roupa do corpo. Nua e crua.
Sem nenhuma experiência. Virgem de todos os sentimentos. Sem nada conhecer, nem tocar em nada. Nem no céu nem no chão.
É num dia como este que eu percebo o meu corpo em constante atrito com a minha alma. E que tudo ao meu redor não passa de uma miragem, coisas que eu não possuo e que não servem para nada além de acumular poeira.
É por isto que eu vou jogar tudo fora. Vou ficar apenas com as paredes pálidas e geladas. Elas me são semelhantes. Neste ambiente oco eu me sinto bem. Eu sou parte dele.
No dia que o calor retornar, eu sigo evaporando...
Adriana Garcia
Eu larguei mão.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
...
Ai de mim se eu tivesse tempo de escrever aqui tudo o que eu quero.
Ah, como eu queria conseguir transferir pras palavras tudo o que eu sinto.
É como se escrever minimizasse minhas torturas internas, ao mesmo tempo que, me parece que se eu transferir pras palavras todos esses sentimentos, eu estou menosprezando-os, pois as palavras são insuficientes pra descrever o que estou sentindo.
Eu sinto, e sinto muito. E isto é tudo.
Adriana Garcia
* Desabafo ou instrospecção? Vai saber...
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