"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância." (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 31 de março de 2010

Chega o frio...



















Os dias quentes se foram. Chega o frio.
As manhãs amanhecem geladas.
As tardes, continuam.
A noite cai, fria também.
Todos se recolhem, menos o poeta.
Este sai, bebericando algum trago
Envolto a neblina que cai.
E nós, submetemo-nos ao medo.
Medo de sentir gelar a alma
E de não voltar ao gosto d’antes.
Toleramos o verão para não amarmos o inverno.
Já não estamos nas ruas, sujeitos aos caprichos do tempo.
Vivemos acolhidos e escondidos em casa,
Na proteção do abrigo,
Debaixo d’um teto sem céu sem chuva.
Quietos e conformados. Contentes com tudo.
Pois chega o frio...
Sob tudo, dentro de nós.

Herman G. Silvani (Niko)

=>Uma frieza que me gela e me afasta...

Faxina




Não é por nada não, mas é que hoje quero me recolher dentro de mim, ficar quieta sem emitir nem o som da minha respiração.
Nada pessoal, mas preciso de um momento sozinha. Se quiser me julgar me julgue, mas não me sentencie. A sentença é o final de uma história, e a minha está apenas começando.
Pareço velha, cansada e entregue ao destino, mas é que aprendi a ter a postura de quem perde. Recolhida dentro de mim quebrarei meus paradigmas.
Começarei excluindo minha intolerância ao que é novo, descobrindo o desconhecido.
Vou abster-me da vaidade, do orgulho e da malícia imposta as minhas palavras e pensamentos. Sangrarei minha carne se preciso para cessar essa cadeia destrutiva.
Começa agora uma guerra dentro de mim travada entre o inferno e o paraíso. Os dois me compõem em igual proporção, bom, pelo menos era pra ser assim no momento da criação. A cada dia sou uma criatura diferente. Ontem o inferno venceu o paraíso, hoje o paraíso dominou o inferno. E assim sigo nas batalhas. Quem vencerá a guerra? Pretendo ser eu. Pretendo vencer o bem e o mal, dominá-los e conviver com eles dentro de mim harmonicamente.
Agora que estou recolhida dentro de mim, só peço que não me sentencie. Só pra você saber, aqui dentro é um pesadelo e talvez por esse motivo minha face pode não lhe parecer muito amiga nesses dias de guerra, é o reflexo. Está uma bagunça este lugar, uma desordem, um caos. Quem com sanidade habita num lugar assim? Vai demorar organizar as coisas por aqui... Paciência!
Andando tropeço em coisas jogadas pelo chão, esbarro em pessoas que eu imaginava não existir mais no meu mundo, vejo cacos de espelhos que foram quebrados para não refletir a realidade. Respiro muita poeira de sentimentos envelhecidos.
A faxina não vai ser fácil!
Mas ninguém me disse que seria fácil e ninguém prometeu me carregar quando as forças minarem.
O bom de tudo isso é que quando eu terminar vou ter um lugar aconchegante pra morar, e dentro de mim haverá mais espaço pras pessoas e pras coisas que realmente importam.

Vil desejo.
Vaga forma de viver.
Vontade doida de mudar!
O que importa é o último V, o V da vontade!

Adriana Garcia


terça-feira, 30 de março de 2010

Toca e Passa

Lá fora cai uma chuva tão fria, tão vazia, tão nostálgica.

São quase cinco da tarde e o telefone ainda não tocou.

Religiosamente ele toca todos os dias depois da meia noite.
Ele toca na alma, na pele, na retina, nos lábios. Ele toca bem lá no fundo, distinguindo-se do pulsar do coração.

Já passa das cinco da tarde e a chuva ainda não passou. Eu sempre me relacionei bem com os dias chuvosos, mas hoje não estou pra solidão.

Hoje eu preciso de calor, de cuidados e aconchego. Preciso de ouvidos atentos pra eu descarregar meus desabafos. Preciso de um colo pra me encolher e receber afagos. Eu preciso de olhos nos olhos, desses que lêem a alma. Preciso de mãos que segurem as minhas e sincronicamente lábios que diga Eu Te Amo!

Preciso de uma pele quente que transfira o seu calor para o meu corpo. Preciso de suspiros soltos no ar orquestrando desejos. Preciso de dedos que bailam no meu cabelo e deslizam no meu corpo provocando vibrações sutis. Preciso de um reino onde os delírios imperam.

Preciso sentir a intensidade de dois corpos que se encontram depois de um longo tempo de espera.

Preciso calar os meus desejos.

Hoje não podia estar chovendo!

Ainda bem que o telefone toca e a chuva passa...


Adriana Garcia

Don't Cry - Guns N' Roses


=> Nada demais...

segunda-feira, 29 de março de 2010

Livre


Apesar da imensa dúvida e questionamentos que não calam hoje eu estou me sentindo livre.
Apesar da pressão no trabalho, dos problemas financeiros. Apesar dos medos internos, medo de não conseguir, medo de falhar sem nem tentar.
Apesar do despeito, da solidão, da carência e da angústia.
Apesar da volatilidade dos planos e da imprecisão das palavras. Apesar dos erros de cálculo.
Apesar das cobranças interiores e das influencias exteriores.
Apesar de mais fracassos que vitórias.
Apesar de ser eu.
Hoje estranhamente estou me sentindo livre!


Adriana Garcia

=> Livre não quer dizer liberta!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Desejos


 A noite estava negra, o céu sem sinal de vida. Um breu que extinguia as expectativas de um amanhecer. Ela estava de cabelos úmidos do banho, um leve frescor exalava de seu corpo coberto apenas por um tecido leve. Sentada no limiar da porta observava atentamente o campo de relva a sua frente. Pensara nos dias que ali estivera com ele... Tardes inteiras dedicadas a poesias e guloseimas.


Ele era um homem feito, não pela idade, mas pelas experiências adquiridas em suas históricas viagens, tinha um corpo impositivo, um olhar austero e um tom de voz que ameaçava a inocência de qualquer moça.
Ela opoente a ele, era inexperiente, o corpo esguio um olhar lânguido, uma voz doce e ingênua. Era frágil, tinha no modo de andar uma malícia que ela mesma desconhecia.
O único momento que as adversidades dos dois se assemelhavam era naquelas tardes... Poemas, alguns toques de mão e um único beijo trocado. O fim das tardes se deu naquele beijo. Ele havia desaparecido depois daquela entrega, ela por sua vez, sentia-se abandonada, havia sido sincera em suas palavras e aquele beijo era a sua maior prova de devoção.
Sentada com as pernas esticadas e os braços cruzados num gesto de abraço a si mesma, ela revivia todos os momentos que haviam se passado. Com olhos cerrados como que em busca de memórias palpáveis, suspirava profundamente enaltecendo sua saudade.
Lembrou da última conversa que tiveram:
Nuno:
- O que sentes por mim? Por que dedica suas tardes de estudo e poesia a este ser que não merece os teus olhares?
Virgínia:
- Sinto uma grande admiração por suas experiências de longas jornadas, o modo como fala me encanta, viajo pra longe desse meu mundinho limitado quando ouço tuas histórias. Soa-me como poesia.
Nuno:
- Poesia? Não uso de palavras bonitas para lhe falar de minhas façanhas. Uso a poesia apenas no momento em que te chamo pelo nome.
Aquele comentário chegou-lhe aos ouvidos repleto de estima e timidez. Sentiu enrubescer todo o corpo. Por mais pobre de lirismo que fosse aquelas palavras, ele conseguiu o efeito que desejava.
Ele tinha um romantismo buscado em livretos baratos, para ele até então havia sido suficiente para arranjar-se nas viagens... Uma namorada aqui, outro affair ali, e assim seguia sem nenhum laço afetivo, sem cobranças ou compromissos.
Nuno:
- Fala-me de amor meu anjo.
Virgínia:
- Nada sei sobre o amor. Apenas ouço sussurros sobre ele.
Nuno:
- Não é capaz de definir tal sentimento?
Virgínia:
- Não. Ainda não sou capaz.
Disse isso com um tom de derrota na voz, baixou o olhar e chorou. Chorou dentro de si, estava se sentindo tão diminuída pela sua inexperiência. Tinha dentro dela todos os desejos do mundo e nenhuma consumação.
Ele pegou carinhosamente a mão dela, como que num ato de renúncia de todos os seus amores passados e respeitosamente beijou-lhe os lábios.
Um beijo tão puro, um instante mágico aonde suas vidas se uniram naquele ato impensado e envolvente. As fantasias dela com aquele momento agora eram passado. Aquela magia estava guardada em suas memórias. Um passado não tão longe que preenche saudosamente os seus pensamentos. Ele partiu assim que a beijou. Logo naquele momento onde era capaz de falar sobre o amor. Sim, sentia-se capaz de falar sobre o amor.
Ele partiu, e assim como nos livretos que ele lia, ela presumiu que a história dos dois findou ali.
Assim como nos sussurros sobre o amor que ouvia aleatoriamente nas reuniões e salões de festas, ela sabia que o amor guiava para a perda, ele era o caminho para os finais tristes.
Ela parou de reviver aquela conversa, recolheu-se no seu quarto e pôs-se a escrever sobre o amor e sobre aquelas tardes ao lado dele.

“Amor não é forte. Você se foi.
Amor não é estável. Eu tentei segurar nossa história, mas eu não fui capaz.
O amor me limitou. Eu nunca pensei que estaria escrevendo isso, mas o que eu posso fazer?
Você se foi e deixou palavras intransigentes nos meus lábios.
Quando elevo o meu olhar eu ainda vejo nuvens que se parecem com você, então olhar para baixo é o que vou fazer.
Vou ficar bem, vou chorar um tempo porque algo dentro de mim morreu um pouco. Eu não tenho que esconder, você foi embora.
O amor guia para lágrimas, estou triste e eu nunca pensei nisso tudo, nessas coisas que o amor pode despertar. Olha o que ele fez comigo!
Com todos os pesares e com a dúvida intrínseca em meus dias, eu sigo enterrando aquelas tardes doces nas minhas noites amargas.”

Ouviu a campainha soar e correu para a porta. A esperança renasceu em seus passos rápidos. Seria ele? Ele teria voltado para terminar aquela conversa e selar com um terno beijo?
Ao abrir a porta acordou dos delírios do passado. Era Felipe, o homem com quem casara. Sim, a vida continuou depois da partida de Nuno. Casou-se e consolidou o seu lar com filhos e dias a fio dedicados a vida doméstica. Nunca mais Virgínia escreveu sobre o amor.
Aquelas tardes foram guardadas no seu passado não tão distante. O passado só morre quando os sentimentos não existem mais.

Adriana Garcia 



"Me deixe sim
Mas só se for
Pra ir ali
E pra voltar

Me deixe sim
Meu grão de amor
Mas nunca deixe
De me amar..."





 


quinta-feira, 25 de março de 2010

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 Hoje isto basta pra definir minhas sentimentalidades!

http://www.youtube.com/watch?v=RVsMZEykZR8


=> Bethânia é extraordinária.

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quarta-feira, 24 de março de 2010

Almas irmãs


O show acabou, deixe de ler essas estórias, elas não acontecerão. Não haverá bis!

Pensar que se conquista a satisfação apenas com palavras é um saboroso engano, mas você entenderá isso no momento que ver as costas deles enquanto se afastam por uma fila indiana, todas as mãos que te apoiaram agora abrem a porta. Mas você permanece teimosa, torcendo o tempo todo para que fiquem. 

Sei que sou chata dizendo isto, mas eu posso te deixar alegre se quiser, mas é que o nosso caso é diferente do teu caso com eles. Eu não estou naquela fila indiana dando as costas pra você. Não quero que se repita em sua vida a trajetória de sucesso de um perdedor. Mas se isso acontecer eu vou te amar do mesmo jeito, sem minimizar nadinha dos meus sentimentos. Eles estavam sendo bons porque precisavam se empenhar numa causa de bondade. 

Eu não faço mímicas com você. Sinceramente, eu te acho mais bonita quando você acorda, porque nesse momento está despida das armaduras, envolvida na penumbra do sono dos puros de consciência.

Você sempre espera por drama, até mesmo quando paga por uma comédia. Deixa isso de lado, olha pra frente, o mais longe que você puder. Nós vivemos num drama, mas morreremos numa comédia. Esteja preparada! Nós podemos ser alegres. O mundo está uma volta a nossa frente é por isso que você se sente lenta, se deixando cair... Vamos alcançá-lo! Encontraremos a felicidade.
Não vivo esperando por um amigo do meu lado ou o Senhor lá em cima me guiando, mas você pode esperar por um amigo, você tem a mim. Eu estou a poucos passos da felicidade, eu vou alcançá-la com você.

Sei que você se sente tão fora do lugar que o sorriso no teu rosto é pra manter longe o choro. Acredite, comigo é exatamente assim, só que eu me mantenho forte pra não te deixar cair. Eu não sei como nós chegamos tão longe sem o toque. Sem sentir a alma uma da outra. 

Nós vamos seguir, e enquanto todo mundo está reclamando nós vamos esperar um novo começo. Compreendo que você tenha muitas frustrações na vida, mas eu estou aberta para negociações. As almas irmãs têm a facilidade de se entenderem. 

Se você se considera com sorte, esqueça isso. E esquecendo isso você construirá suas próprias oportunidades. Daí você poderá vangloriar da sorte que teve. A sorte é compreender que as oportunidades acontecem, ou não, e independentemente você progredir nos seus planos. A sorte é quando você começar a viver isso.

Há quem faça orações todos os dias pensando terminar a vida com mais do que o seu vizinho. Nós não precisamos dessa permuta com o Senhor. Não precisamos comprar viagens de ego, mas poderemos dar nossos chutes. Vamos apostar na felicidade.
Unidas descobriremos o que a felicidade é.


Adriana Garcia 


=> Minha querida irmã, tudo vai ficar bem.



terça-feira, 23 de março de 2010

No estress!



Sabe aquele ditado que diz que a cobra é fumante?
Pois é, hoje ele se concretiza!

"Hoje a cobra vai fumar..."

Não tenha dúvidas que se eu pudesse sairia correndo e gritando pelas ruas. 
Hoje assumiria a débil existente em mim. Hoje é um dia propício para se cometer uma loucura, extravasar com os sentimentos, deixar a razão na gaveta ao sair de casa.

Hoje é um dia perfeito pra mandar o chefe visitar sua mãe na zona de baixo meretrício, jogar veneno no coqueiro do vizinho que empesteia minha casa com lagartas, tocar fogo na minha velharia eletrônica, arremessar o celular na parede ao primeiro toque, ou apenas responder aquele bom dia com um “de bom não tem nada!”

Hoje eu não estou pra cordialidades. 


Adriana Garcia 






segunda-feira, 22 de março de 2010

Hoje eu quero falar de amor




Hoje eu quero falar de amor. Quero extinguir a dor e os sentimentos opressivos.
Hoje, sinceramente, gostaria de falar de amor!
Eu forço o meu cérebro, interrogo minha memória e pressiono meu coração. Provavelmente estou usando o método errado. O amor não se força, ele flui naturalmente.
O amor é infindo, e definir não seria limitar? É o que dizem...
Talvez, não consiga defini-lo por inexperiência. Talvez ainda não tenha amado, e por este motivo a dificuldade de expressá-lo. Não posso transcrever algo que desconheço.
Ou talvez, eu apenas ame de forma diferente dos outros seres humanos. Pode ser que minha forma de amar seja tão singular, tão íntima e tão tímida, que tudo o que eu fale e escreva não seja interpretado como amor...
Só que hoje eu necessito falar de amor.
Talvez o amor em mim, seja apenas uma sementinha não tratada que teima em nascer num solo infértil. Quase extinta pelas casualidades do tempo! Assim como essa sementinha tentando germinar se esforça pra romper a película que a envolve, o amor, timidamente dentro de mim grita tentando ser notado. Ou melhor, loucamente querendo ser transcrito e eternizado nesta página. Não é assim? O amor não é eterno?

Adriana Garcia 

“Ontem eu recebi um telegrama... 
...
Por isso hoje eu acordei com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho e desejar bom dia
De beijar o português da padaria.”

Zeca Baleiro
 






sexta-feira, 19 de março de 2010

Borrão





Ele não conseguiu suportar e encarar a realidade, então resolveu apagar a vela mais brilhante de todas. Cada batida do seu coração quebrou as minhas mentiras em pedaços, fazendo minhas fundações tremerem. Cada onda do seu mar enferrujava minha prataria. Virei um estilhaço...
Havia uma vasta riqueza nas chamas, mas ele soprou a vela. Os restos que queimaram continham minhas respostas certas. Pra ele que não sabe identificar quando a oportunidade morre, a clausura é como uma página intocada que se mancha de vermelho, esta página não contêm cores firmes e irá manchar a próxima. O que restou é apenas um pretexto do que era pra ser. Em vida nada se parece com os sonhos. Os sonhos para ele é apenas um grotesco borrão que mancha toda a história.

Infelizmente, esta página irá manchar a próxima...

Adriana Garcia

=> Sonhos mancham a realidade. E eu sempre prezei os borrões!