"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância." (Fernando Pessoa)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Acaso




Eu já não me lembro dos dias passados.
Antes me sentia refém do tempo, aprisionada no cárcere das horas.  Agora não tenho mais preocupações com o relógio. Não conto meus passos a cada movimento do ponteiro. Quando se tem a quem abandonar, os dias subseqüentes a partida tornam-se vazios e longos. Não há afazeres ou qualquer outra atividade que consiga preencher estas lacunas abertas pela ausência.
Agora eu não caminho pelas calçadas tentando me manter a salvo, exalando o cheiro do medo no vento que sopra contra mim. Agora eu atravesso a rua, corto a preferência dos carros, insinuo segurança nos olhares que lanço nas pessoas inalcançáveis que se disfarçam de objetos para fugir dos sentimentos. Agora eu corro nos trilhos me equilibrando para manter o foco no trajeto, sem dispersar minha atenção pros supérfluos que estão fora de qualquer convenção.
Agora eu tirei as máscaras para sentir a brisa tocar minha face, despi-me das roupas para que o sol queime minha pele, quero sentir o frio arder nas noites sem lua. O fogo deixa de queimar, o rubor perde a cor, mas eu continuo a mesma. Mudei apenas o modo que trato os meus sentimentos. Às vezes sinto resistência as mudanças, mas um dia temos que começar as mutações. Dentro de nós há muito mais do que possamos ver e sentir, e a descoberta torna-se possível quando se transforma sombras em verdades.
Estou saindo da juventude moribunda, não sou uma fachada, e minhas mudanças não são superficiais. Minhas recordações desapareceram nesses últimos dias, isto me faz pensar que preciso mudar os meus caminhos. Meus sentimentos são consumidos por dentro e a casca que os envolve é de mármore.
Agora que abandonei meus medos, fiquei espantada, com as capturas que fiz dentro de meu severo mundo utópico. Capturei carinhos doces que não iam continuar por muito tempo, sentimentos imperfeitos e aflições inúteis. Sempre usei o amor como um dispositivo contra a solidão e como tudo o que vejo o amor se tornou um sonho que um dia foi real. Eu secretamente almejei algo que nunca havia existido e meus sonhos se precipitaram em realidade. Fui graciosa do lado de fora e em profunda decadência por dentro. Devotada a um corpo sem alma fiz minhas investidas no que eu acreditava ser real.
Agora, neste exato minuto estou nua por dentro, procurando pistas do que eu sou e recusando os fatos do profundo interior que me encaminham para o deserto árido que é a esperança.
Estou à espera pelo dia em que eu me darei conta de que não existe caminho, e que eu já não tenho tempo para viver nesta condição.
Por hoje me basta apenas não viver mais em uma mentira! 
  
Adriana Garcia



“As flores de plástico não morrem”


2 comentários:

Angelica disse...

Cada pedra no caminho é essencial para nosso crescimento pessoal, emocional ou profissional. Com o tempo descobrimos o que importa e as "aparências" já não nos dominam tanto. Adorei seus pensamentos. bj

Adriana Garcia disse...

Verdade Angélica. O crescimento sempre ocorre, e quase sempre é doloroso. Realmente é difícil se livrar das "aparências", mas nada impossível, não é mesmo? rs

Obrigada flor.