"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância." (Fernando Pessoa)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Metade - Oswaldo Montenegro



Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silencio;
 
Que a musica que eu ouço ao longe seja linda ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade;
 
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece, e nem repetidas com fervor, apenas respeitadas, como a única coisa que resta num homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo;
 
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço;
Que esta tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada;
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é lembrança do que fui, mas a outra metade eu não sei;
 
Que não seja preciso mais que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito;
Que o teu silencio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço;
 
Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba;
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade pra faze-la florescer;
Porque metade mim é a plateia, a outra metade é canção;
 
E que a minha loucura seja perdoada;
Porque metade de mim é amor, e a outra metade também.

Oswaldo Montenegro




*Até este momento, ainda não ouvi nada que definisse tão bem quem eu sou e o que eu sinto, como este poema canção! É impossível não aquietar meu espírito toda vez que eu o ouço.

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