"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância." (Fernando Pessoa)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Infância



Noite passada antes de dormir vasculhei o baú da minha memória, encontrei vozes, gostos, cheiros, texturas que se diluíram em lágrimas, as mais saudosas que já verti. Então me deixei levar pelas lembranças que preencheram o vazio dentro de mim, vazio de sonhos, palavras de aconchego, de versinhos para brincadeiras de roda, da inocência do riso, a força do braço que provocava o grito, da fé inabalável das orações que precediam as refeições. Por instantes o passado se fez presente.


Foi possível sentir o cheiro... A terra molhada depois de um chuvisco, e a esperança que chegava com o arco-íris, eu era capaz de andar léguas atrás do pote de ouro que se escondia ao final dele, mas era detida pelo medo, pois diziam que quando a menina passava debaixo de um arco-íris logo virava menino. Fim de tarde tinha cheiro de bolo. Sentada na beira da rua o comia com voracidade a ponto de ganhar advertências sobre bons modos.




Fim de tarde tinha cheiro de bolo e suor. Suor de minha pele, da pele de vovô, que chegava exausto da lida, mas não menos animado pra brincar com a gente (eu e meu primo Caio). Eu ganhava um abraço apertado e suado, era o meu prêmio por ter sido uma menina “comportada” o dia todo. Aquele abraço terno virava um turbilhão de gargalhadas – talvez as mais sinceras até agora. Os dedos de meu avô faziam grosseiramente cócegas que doíam de prazer, eram tantos risos, tantos gritos de socorro, um escândalo de alegria.
Tentávamos mantê-lo fora de casa, mas sem sucesso. Era coisa séria se ele entrasse em casa, vovó vinha com as queixas recebê-lo, eles conversavam num português mais agradável que já ouviu os meus ouvidos:



“– Num guento mais esses minino, ralho com eles, mas num tem jeito, são custoso demais, é muita danura pra duas criança. Ênio acredita que hoje eles soltaro tudo minhas galinha e depois cortaram tudo os meus pé de planta? Ênio para de rir!”.



Vovô apoiava todas as “danuras”, nem que fosse preciso brigar com a vovó:



“ – Deixa Maria, minino é assim memo, tem que corrê, tem que brincá, mexê com água, tê contato com a terra, fazê estripulia, senão cresce uns minino cheio de doença.”



Era o melhor advogado que existia! Sabíamos de seu fiel apoio e isso nos encorajava para realizarmos nossas peripécias. Eu era tão rica, tinha tudo o que precisava pra ser feliz e me tornar hoje quem eu sou. Tinha o lugar, as pessoas e as palavras necessárias.


Tentei eternizar minha infância, mas sempre ouvia minha mãe dizer que eu já estava grandinha demais pra fazer aquilo, que tinha passado da idade e não tinha mais graça.



Os anos passaram e fui levada pra uma cidade de gente estranha, de gente que não ria, as crianças eram iguais aos adultos. Não havia escolha. Tive que permanecer ali, e permaneço até hoje, me tornei mais uma daquelas crianças, matei alguém dentro de mim, me afundei em livros e nas intermináveis manhãs de sono, já não tinha com quem brincar, ali não tinha pé de árvore, nem animais, nem banho de chuva. Aquela massa cinza cobrindo o solo, não permitia que eu corresse pelas ruas, doía-me os pés, mais que as pedras daquela ladeira de chão.



Cada amanhecer trazia consigo um pedaço de dor. Aquele lugar, aquelas paredes me detendo, aquela caixa de imagem se tornando minha melhor amiga. E meu primo? Cadê o Caio?



Meu coração foi endurecendo, sofria pela saudade e pela solidão. Sofria preconceitos daquela gente fria, eu havia me tornado motivo de chacotas na escola porque não falava com aquele sotaque bizarro, deve ser por isso que não me deixei contaminar nesses 18 anos que vivo aqui. Eles não entendiam de crianças, na classe não rezavam, não cantavam aquela canção que soa vibrante em minha memória... “Bom dia coleguinha como vai? Da nossa amizade nunca sai, faremos o possível para sermos bons amigos. Bom dia coleguinha como vai?” Dias difíceis!



Mas nunca me deixei amargurar por conta desses acontecimentos. Não culpo essa cidade nem aquelas pessoas, elas eram mais tristes do que eu. Elas, coitadas, pouco sabiam de humildade, gratidão, compaixão com o próximo. Pouco sabiam de amor.


Guardo em mim uma tristeza saudosa. Levo na bagagem todas essas lembranças com o propósito de me servirem de fuga da realidade. Reviver as coisas boas é acalanto, me faz crer que o amor é possível.



Hoje as coisas vão bem, a muito custo vão bem. Engolindo as palavras, excluindo as ofensas – não as tornando menos dolorosas. Crio o meu mundo. E ele cabe dentro de mim, tão pequeno, tão simples, aconchegante, tão oprimido por não se fazer real.


Súbita viagem. Da menina feliz a adulta frustrada.



Lembranças que embalaram meu sono...




Adriana Garcia

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