
De manhã acordou irritadíssima com o grito do celular a despertar. Como odiava aquele toque frenético. A vontade era de ficar na cama, não levantar naquele dia, afinal que graça tem lá fora? Aquele toque persistindo de 8 em 8 minutos era a consolidação de sua escravidão branca.
Ao sair da cama não achou suas chinelas, pisar no chão frio era decretar sua morte. Foi ao banheiro tomar banho, o chuveiro não aquecia, higienizou-se e vestiu-se. Camisa amassada, mas nem ligou, era uma gorda mesmo, a camisa se ajustava em seu corpo e tudo ficava bem...
Não tomou seu café da manhã, o motivo era o mesmo de não passar a camisa. No caminho do trabalho foi blasfemando contra todos que cruzavam sua frente. É tão difícil assim as pessoas respeitarem o transito? Não percebiam que ela estava atrasada? Não era mesmo o seu dia.
Ao chegar à empresa tentou ser simpática. Bom dia! Bom dia! E aí menina como foi o fim de semana? Bom dia!
[...]
“Que droga! Quem mexeu em minha mesa? É tão difícil assim respeitar o espaço dos outros? Ninguém respeita ninguém... Fazem isso porque eu sou mulher! Ninguém me acha competente. Isso está acabando comigo, estou gorda por causa desse trabalho, não durmo porque os problemas do mundo estão em minhas costas! Será que isso só acontece comigo?”
Minutos depois de falar mal do mundo sem dizer uma só palavra, resolveu se ocupar logo do trabalho. Já havia alimentado dentro de si com ira a sua revolta.
“Mas é um inferno mesmo! Essa droga de notebook não liga! Dá erro! Infernos!”
A vontade era matar Bill Gates ou quem quer que fosse o responsável por aquela engenhoca que não funciona quando mais se precisa!
Na hora de ir almoçar já não tinha mais fome, a úlcera colérica de raiva já tinha comido o seu estomago. Pra variar sua carona pro almoço atrasou. “De certo essa pessoa pensa que tenho todo tempo do mundo.”
A tarde ninguém mais se aproximava dela, mal a olhava pelos vidros da divisória. “Esse pessoal tá escondendo alguma coisa de mim... Ninguém falou comigo hoje, estão me evitando. Será que sabem de alguma coisa que eu não sei? Ai meu Deus! Vou ser mandada embora!”
E agora, o que ela ia fazer sem emprego? Suas dívidas? Sua casa? Por que acontece tanta tragédia em sua vida? O que ela havia feito ao mundo, as pessoas?
Ao fim do dia estava destruída, com vontade de morrer e matar, uma dessas alternativas iria acontecer dentro das próximas 24 horas! No caminho de casa pensava em tudo, como fora sua vida até ali, ninguém nunca a amou de verdade, estava prestes a ser mandada embora, não tinha amigos, animais de estimação, era feia, burra, infantil... Uma inútil!
Trancou-se no quarto e chorou. Sentiu uma leve dor no abdômen. Seria fome por não ter almoçado?
Resolveu se lavar para preparar o que comer. No banho sentiu contrações no abdômen, uma leve cólica...
Indignada com sua condição descobriu que toda sua crise de nervos, crise existencial, crise emocional, crise conjugal, crise familiar, financeira... Crise Mundial... Por que não???
Todas as suas crises resumia-se a apenas uma crise de TPM!
Adriana Garcia
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