"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância." (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Quarta cinzenta



Uma manhã de quarta-feira, apenas mais uma manhã sem ser contabilizada em seus dias...

Seria assim, se não fosse pelo frio que Lúcia sentia. Um vento gélido lhe tocava o rosto enquanto se arrastava para o trabalho. De tão gelado, ardia. Mas a medida que a moça caminhava o frio ia passando, e o calor lhe escorria por dentro da blusa de lã. O sol ia apontando em sua frente e mesmo sem querer, os olhos iam ficando semicerrados por conta daquele brilho exagerado que o sol dispensa cada vez que rompe a barreira de uma densa neblina, como se estivesse a dizer que agora a trégua tinha acabado. 

Lúcia gostava do frio, e sentiu uma leve tristeza por perceber que ele já se ia. Lúcia não gostava da primavera que estava chegando, achava tudo muito alegre e isso não combinava com seu estado de espírito. Ela precisava do frio pra acentuar sua tristeza e sua condição quase que vegetativa. 

Sol, flor, pássaros e todas essas coisas bonitinhas lembram vida, e vida é algo que ela desconhecia.  Ela era descrente da raça humana, sentia-se uma deslocada dentro de seu próprio corpo. Tudo o que possuía vida ela conseguia afastar com um simples olhar, e gostava de saber disso. Era um dos poucos prazeres de que desfrutava.

Naquela manhã de quarta-feira, quando ao passar por um botequim de esquina, desses que velam os beberrões que se afoga no martírio etílico, ela se sentiu atraída por aquela penumbra imunda. Aquele lugar pareceu familiar, aqueles rostos sofridos era o que ela via no espelho.  Entrou se apossou de uma garrafa de gim, ao abrir a garrafa o vapor que saiu dela ardeu-lhe os olhos e ela bebeu alguns goles secos. A sensação era de ter o peito rasgado por aquele líquido. 

Ela sentia sua cabeça latejar e as narinas dilatavam a cada respiração. Ao término do último gole sentiu repugnância e teve que ser forte pra não vomitar o líquido nos pés do homem parado a sua frente. Lúcia ergueu os olhos envergonhados, e se deparou com um rosto afável. Sentiu vontade de chorar, mas o orgulho a impediu, engoliu o choro com mais um gole e saiu correndo daquele lugar.

Voltou pra casa, não foi ao trabalho naquela manhã, subiu com dificuldade os quatro andares até chegar em seu apartamento, entrou exausta, fechou todas as cortinas, desligou o telefone e deitou largada no sofá de tecido gasto, a casa cheirava a mofo. A luz abafada pelas cortinas deixava o ar denso, e Lúcia se sentia suja e maltrapilha.

Sentia vertigens e essa sensação ia se reproduzindo em toda extensão de seu corpo. Lúcia quis morrer naquela manhã. A morte lhe cheirava a nuca e lentamente a conduziu até a janela de seu quarto. Ao abrir a janela o vento soprou forte em seu rosto, olhou para baixo e imaginou a queda, imaginou aquele vento no rosto e seus cabelos esvoaçados tremulando junto as suas roupas. Teve uma sensação de liberdade ao imaginar a queda. Ergueu o olhar e se lembrou do rosto afável daquele homem do bar.

O espírito miserável de Lúcia não permitiu que ela se jogasse, era um jeito muito livre de se morrer. Lúcia preferiu ir até a cozinha e pegar um litro de vodca, procurou por um copo, mas todos estavam sujos na pia mofada de tanta louça por lavar. Bebeu no gargalo mesmo, e assim decidiu terminar seus dias ali, naquele mundo criado por ela e habitado pelas garrafas vazias que iam acumulando pela casa. Fez do álcool sua companhia. 

Uma vez ou outra Lúcia olhava pela janela a vida lá fora imaginando como seria sentir o vento nos cabelos. Lembrava do rosto daquele homem... Sentia um grande vazio e abandono. E então, mais uma vez, recorria ao álcool pra amortecer suas dores.

Lúcia nada sabia sobre a vida, não conhecia nada sobre as pessoas, não sabia nem quem era ela, e por medo decidiu que era melhor continuar assim, e além do mais a exaustão lhe impedia de buscar algo desconhecido e quem sabe até descobrir que dava pra ser feliz...

Adriana Garcia - Numa manhã de quarta-feira...

2 comentários:

Jeferson Cardoso disse...

Olá Adriana!
Gostei do seu jeito de escrever. Texto ‘down’.
Tenha uma abençoada quarta-feira!

Quero lhe convidar para ver e comentar ‘Um trocado para uma lata de leite caro’ no http://jefhcardoso.blogspot.com

“Que a escrita me sirva como arma contra o silêncio em vida, pois terei a morte inteira para silenciar um dia” (Jefhcardoso)

Adriana Garcia disse...

Olá Jeferson, obrigada pela visita! Vou visitar seu blog!! Até logo!